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Casa de memórias: Museu do Rancho Folclórico de Foz Côa

No contexto contemporâneo da museologia, marcado pela valorização das memórias locais, das identidades comunitárias e do património imaterial, as pequenas casas-museu e os núcleos etnográficos assumem uma relevância crescente. Distantes da monumentalidade dos grandes museus nacionais, estes espaços revelam frequentemente uma capacidade singular de preservar aquilo que raramente entra nas narrativas oficiais: os gestos quotidianos, os ritmos domésticos, as práticas de sociabilidade, as crenças íntimas, os objetos de uso corrente e as formas de habitar o território. É neste horizonte que se compreende a importância do Museu do Rancho Folclórico de Foz Côa, fundada por D. Mariazinha, cuja ação persistente permitiu reunir, conservar e apresentar um conjunto significativo de testemunhos materiais da vida rural e doméstica do território duriense e coense.

Receção
Vila Nova de Foz Côa, Museu do Rancho Folclórico
Foto: MIR, 2026

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Dia da espiga

“Como era dia da espiga, pelas veredas que as terras demarcavam, os grupos da gente operária com exércitos de pequenada, iam entre as searas, serpenteando com fatos de domingo, para colher o ramalhete de papoilas e espigas, que no dizer da lenda lhes traria ao ninho, felicidades e paz.” (Almeida, 1882, p. 74).

O Dia da Espiga ou Quinta-feira da Espiga coincide com a festa da Ascensão. Na tradição cristã, esta festa móvel celebra a elevação de Cristo aos céus, quarenta dias após a Ressurreição e marcando o fim da sua presença junto aos homens. Conforme o dito popular: “da Páscoa à Ascensão, quarenta dias vão “. A contagem dos dias após o Domingo de Páscoa implica que a festa calhe sempre à quinta-feira e, geralmente, no mês de maio, na décima-quarta semana da Páscoa (cfr. Atos 1, 3). Esta é uma festa dita ecuménica, no sentido em que é comemorada por todas as igrejas de matriz cristã. Não havendo registos anteriores ao século V, a Festa da Ascensão é mencionada por João Crisóstomo, Gregório de Níssa e Santo Agostinho, que afirma a sua origem apostólica e uma prática generalizada desde os tempos da Igreja primitiva.

O dia d’a espiga
A. Rey Colaço, c. 1920 (?)

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Maio, maduro maio: tradições algarvias

Os romanos festejavam entre 30 de abril e 3 de maio as “floralias”, a festa dos cereais e das flores. O festival romano era dedicado a Flora, a deusa das frutas e flores, e celebrava a fertilidade do solo, dos animais e das pessoas. Na Grécia, o Protomagia assinalava o auge da floração e, por isso, faziam-se coroas de flores e ramos verdes. Na tradição celta, o festival Beltane celebrava-se na primeira noite do mês, com danças à volta da fogueira.

Mayas. […] em Roma se celebrava com ramos, hervas, e capellas de flores no mes de Mayo, por ser o tempo em que as plantas saõ mais viçosas […] Mayas ainda hoje se usaõ em Portugal nos Domingos e dias Santos do mês de Mayo, pondo se em algumas ruas humas mesas, cubertas com alcatifas, ou outros pannos, e se assenta em cada huma dellas huma menina, ou moça, bem vestida, que pede dinheiro às pessoas que passaõ. (Bluteau, 1716, p. 372) Continuar a ler “Maio, maduro maio: tradições algarvias”

Pão por Deus

No dia de Todos-os-Santos, é costume grupos de crianças saírem à rua e andarem de porta em porta a pedir o “Pão por Deus”. O pedido era acompanhado por cantilenas variadas: desde “Ó tia, dá Pão-por-Deus? Se o não tem Dê-lho Deus!” a outras bem mais elaboradas, como “Pão por Deus, Fiel de Deus, Bolinho no saco, Andai com Deus”. E, em resposta, agradecendo a esmola: “Esta casa cheira a broa, Aqui mora gente boa. Esta casa cheira a vinho, Aqui mora algum santinho.” Ou, se lhes fosse negado o pedido: “Esta casa cheira a alho, Aqui mora um espantalho. Esta casa cheira a unto, Aqui mora algum defunto.” Subjacente a todas as cantilenas, há um agradecimento se o pedido for satisfeito com uma oferta e ditos jocosos ou a promessa de travessuras se o pedido for negado.

Bolsa para a recolha do pão de Deus Foto: BurroVille, 2012
Bolsa para a recolha do pão de Deus
Foto: BurroVille, 2012

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