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O que é roubado, quando se rouba o museu?

O assalto ao Louvre, em 19 de outubro de 2025, não inaugurou uma nova modalidade de crime contra museus, mas tornou visível uma vulnerabilidade que estas instituições tendem a manter fora do olhar público, bem como a tensão inevitável entre a obrigação de mostrar e o dever de proteger. E, da mesma forma, evidenciou as contradições de sociedade que retira os objetos do mercado, os declara património e, simultaneamente, continua a atribuir-lhes valores económicos capazes de gerar o desejo de os devolver violentamente à circulação mercantil.

Galerie d’Apollon, Musée du Louvre, após o assalto de 19 de outubro de 2025
Foto: Il Giornale dell’Arte, 2025

Naquela manhã, dois dos quatro indivíduos envolvidos no assalto alcançaram a Galerie d’Apollon através de uma plataforma elevatória, entraram por uma janela e atacaram duas vitrinas de alta segurança. Oito peças das antigas Joias da Coroa francesa foram roubadas; a coroa da imperatriz Eugénie, igualmente retirada, foi abandonada durante a fuga. O Louvre estimou o prejuízo em 88 milhões de euros. Os alarmes tinham funcionado e os agentes presentes cumpriram os procedimentos previstos. Ainda assim, o roubo consumou-se.

A espetacularidade do episódio favoreceu inevitavelmente a narrativa do heist: o assalto audacioso, executado contra uma instituição aparentemente inexpugnável, e a figura persistente do ladrão de arte sofisticado.

A investigação administrativa realizada após o roubo revelou a vulnerabilidade do museu. Embora os alarmes e os protocolos tivessem funcionado, foram identificadas uma subestimação estrutural do risco de intrusão e roubo ao longo de mais de vinte anos, insuficiências na vigilância exterior e fragilidades na organização e na governação da segurança. É o prolongamento da vulnerabilidade que coloca a questão no âmbito da organização e da cultura institucional.

Diane Vaughan (2015), ao estudar o desastre do Challenger ((O desastre do vaivém espacial Challenger ocorreu na manhã de 28 de janeiro de 1986, quando a nave da NASA se desintegrou completamente apenas 73 segundos após o levantamento voo. O acidente, causado por uma falha das juntas, retirando-lhes a flexibilidade necessária para selar os gases pressurizados, ocorreu a cerca de 14 km de altitude sobre o Oceano Atlântico, ao largo da costa de Cabo Canaveral, na Florida. A tragédia resultou na morte de todos os sete tripulantes e chocou o mundo, uma vez que o lançamento estava a ser transmitido em direto na televisão e acompanhado em milhares de escolas americanas.)), designou como “normalização do desvio” o processo através do qual situações inicialmente consideradas anómalas ou arriscadas se tornam progressivamente aceitáveis se a sua repetição não produzir consequências graves. Sem pretender transpor o modelo para o Louvre, há que reconhecer uma dinâmica comum às organizações complexas: a ausência de desastre não prova a resiliência do sistema, apenas camufla uma vulnerabilidade latente enquanto aguarda a conjuntura de circunstâncias que origina a ocorrência desastre.

É neste sentido que o Louvre deve ser entendido como um acontecimento revelador, e não como a origem de uma alegada epidemia de roubos que a imprensa sensacionalista e os ecos nas redes sociais têm vindo a propalar. Os dados disponíveis não permitem estabelecer um “efeito Louvre”, ou uma relação causal entre aquele assalto e os que se lhe seguiram, mas autorizam a perceção de uma transformação mais ampla das modalidades do crime patrimonial.

Musée Renoir, após o assalto de 8 de setembro de 2026
Foto: Valery Hache / AFP, 2026

Porém, os alvos não se limitam a joias ou metais preciosos. A 8 de setembro, dois indivíduos penetraram, pouco antes das seis da manhã, no Musée Renoir, em Cagnes-sur-Mer, cortando a vedação do jardim e acedendo ao edifício por uma janela. Retiraram quatro pinturas de Pierre-Auguste Renoir, avaliadas em nove milhões de euros, todas pertencentes ao Musée d’Orsay e aí depositadas desde 1995. A chegada rápida da polícia levou-os a abandonar Portrait de Madame Stephen Pichon e Coco lisant, conseguindo fugir com Portrait de Madame Colonna Romano e La Jeune Femme au puits. Curiosamente, três das quatro obras têm estatuto MNR (Musées Nationaux Récupération), isto é, integram o conjunto de bens recuperados após a Segunda Guerra Mundial cuja propriedade legítima não pôde ainda ser restabelecida.

O caso introduz uma diferença importante relativamente às joias do Louvre. Uma peça de joalharia pode ser desmontada, o ouro fundido e as pedras separadas, permitindo que o valor económico dos materiais sobreviva à destruição da identidade do objeto. Uma pintura de Renoir funciona numa lógica quase inversa: o seu valor reside justamente na permanência da autoria, da materialidade e da identidade que a tornam reconhecível. Quanto mais conhecida e documentada for, maior poderá ser o seu valor no mercado legítimo e, paradoxalmente, menor a possibilidade de aí circular após ter sido roubada. As duas pinturas ainda desaparecidas são, por isso, simultaneamente objetos de elevado valor e mercadorias extremamente difíceis de converter abertamente em dinheiro.

O facto de três das peças visadas em Cagnes-sur-Mer serem MNR acrescenta ao episódio uma ironia perturbadora: objetos que já carregavam uma biografia marcada pela deslocação, pela espoliação e pela impossibilidade de restituição plena voltam a entrar numa situação de apropriação ilegítima. O roubo atual sobrepõe-se, assim, a uma história anterior de perda de propriedade e recorda que a biografia patrimonial dos objetos não termina quando estes entram num museu.

Semiesfera oca do Tesouro de Villena, roubada do Museu de Villena a 27 de agosto de 2026.
Bronze Tardio, c. 1400–1200 a. C.
Ferro meteorítico revestido por fina lâmina de ouro recortada.
Foto retirada do Instagram

Esta constatação conduz à análise do papel do museu enquanto agente de valorização dos objetos. Na introdução à obra The Social Life of Things, Appadurai (1986) propôs pensar o valor não como propriedade intrínseca dos objetos, mas como algo produzido através das relações sociais e dos regimes de circulação em que participam. Na mesma obra, Kopytoff (1986) desenvolveu a ideia de uma biografia cultural das coisas: os objetos atravessam diferentes estatutos sociais e podem ser, sucessivamente, mercadoria, herança, objeto ritual, documento ou património. Em ambos os autores, está a ideia de que o museu constitui um dos mais poderosos dispositivos modernos de singularização.

A musealização de um objeto retira-o da circulação mercantil corrente e coloca-o num regime particular de valor: converte-se em documento, testemunho de uma sociedade, instrumento de representação política, memória material e parte de uma narrativa patrimonial coletiva. O roubo tende a inverter radicalmente esse processo, mas não da mesma maneira em todos os objetos.

Se uma joia histórica for desmontada para que as pedras e o metal circulem separadamente, perde-se, além da forma material, a sua própria biografia. Aquilo que constitui o seu maior valor no museu, como a identidade, a proveniência e a singularidade, torna-se um obstáculo à circulação ilícita, pois permite reconhecê-la. Em contrapartida, uma pintura não pode ser alterada sem perder o seu valor económico. Para continuar a “valer”, tem de continuar a ser Renoir, justamente aquilo que impede a sua circulação normal. O objeto fica suspenso entre dois regimes: conserva um enorme potencial de valor simbólico e económico, mas perde grande parte da sua liquidez. Pode então entrar em circuitos mais opacos, permanecer escondido durante décadas ou assumir funções que já não se enquadram na transação convencional de mercado.

Por outro lado, os objetos patrimoniais acumulam também capital simbólico (Bourdieu & Darbel, 1969): incorporam reconhecimento, legitimidade, distinção e memória coletivamente produzidos. O desaparecimento de uma peça de um museu público não prejudica, portanto, apenas o seu proprietário jurídico. Priva a comunidade presente e futura de um objeto em torno do qual foram construídas relações de conhecimento, identificação e pertença.

Clopés e Balcells (2025), ao analisarem quarenta assaltos ocorridos entre 1990 e 2022, chamaram a atenção para a escassez de investigação empírica sobre o roubo de arte e para a distância entre os padrões observáveis e a imagem pública desses crimes. A força bruta constitui uma forma bastante mais frequente de neutralizar os sistemas de segurança do que o imaginário do ladrão altamente tecnológico faria supor; armas e cumplicidades internas, pelo contrário, não parecem ser a norma. Também o relatório publicado pela Europol em agosto de 2026 confirma que o fenómeno está a mudar. A agência identifica métodos mais diretos e agressivos, incluindo o recurso a marretas, explosivos e armas, e uma atenção crescente a objetos de elevado valor intrínseco, sobretudo metais preciosos, gemas e artefactos culturalmente significativos. Os seus autores podem ainda provir de outros setores da criminalidade, formando redes circunstanciais em vez de grupos altamente especializados em arte (Europol, 2026). O ladrão, mesmo sem conhecimentos específicos no domínio da história da arte, precisa, sobretudo, de saber onde se encontra o objeto, quanto pesa, quanto tempo demora a resposta de segurança e como poderá ser convertido em dinheiro.

Também a cadeia posterior ao roubo é mais complexa do que a narrativa que conduz diretamente do ladrão ao misterioso colecionador clandestino. Fuentes Loureiro e Faraldo-Cabana (2026), num estudo sobre os processos julgados em Espanha entre 2014 e 2024, verificaram que apenas cerca de um quarto dos casos envolvia organizações criminosas. Predominavam indivíduos, pequenos grupos e redes relativamente fluidas, embora antiquários, comerciantes, restauradores e outros profissionais pudessem assumir funções relevantes na circulação posterior dos objetos.

O problema da segurança patrimonial ultrapassa, portanto, largamente o museu. Ao mesmo tempo, conduz ao paradoxo fundamental da instituição museológica contemporânea. Segundo a teoria das atividades rotineiras de Cohen e Felson (1979), certas formas de crime tornam-se possíveis quando convergem um infrator motivado, um alvo adequado e a ausência ou insuficiência de uma proteção capaz. O museu apresenta, deste ponto de vista, uma condição paradoxal: reúne objetos raros e valiosos, torna pública a sua localização, divulga imagens e investigação detalhada e, cumprindo a sua missão, convida milhares ou milhões de desconhecidos a aproximarem-se deles. Assim, uma parte da sua vulnerabilidade deriva do acesso alargado aos seus acervos.

A forma mais radical de proteger uma coleção seria encerrá-la numa reserva inacessível. O que seria, igualmente, negar a sua função museológica. Por conseguinte, a segurança não tem por propósito garantir o risco zero, mas sim gerir um risco inevitável sem destruir as condições de acesso que justificam a instituição.

A gestão do risco não se limita ao uso de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Implica, antes, a consolidação e atualização das práticas de conservação preventiva: inventariar, fotografar, conhecer localização das peças, formar equipas, testar tempos de resposta, controlar acessos e assegurar a comunicação imediata de uma falha ou um desaparecimento.

Depois do assalto, trancas à porta? Sim, mas… Se a resposta a cada assalto consiste em aumentar a distância entre a obra e o visitante, multiplicar barreiras ou retirar objetos da exposição, o crime produz uma consequência adicional que lhe amplia desmesuradamente o prejuízo: modifica a experiência de todos os públicos que vêm depois. O desafio consiste em impedir que a resposta seja um reforço extremo da segurança, simétrico à espetacularização mediática do roubo.

Apesar dos roubos e, talvez, precisamente por causa deles, o museu continua a ser um reduto seguro dos bens patrimoniais. Assumindo uma inevitável vulnerabilidade – entre proteger e mostrar, conservar e partilhar, controlar e confiar –, deve pensar a segurança não como um obstáculo ao acesso, mas como condição da sua continuidade enquanto espaço de preservação da memória.

Referências:

Appadurai, A. (1986). Introduction: Commodities and the politics of value. In A. Appadurai (Ed.), The social life of things: Commodities in cultural perspective (pp. 3–63). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9780511819582.003

Bourdieu, P., & Darbel, A. (1969). L’amour de l’art: Les musées d’art européens et leur public (2ª ed. rev. e aum.). Les Éditions de Minuit.

Clopés, S., & Balcells, M. (2025). The science of art theft: Using data to identify criminal patterns, 1990–2022. International Journal of Cultural Property, 32(2), 105–131. https://doi.org/10.1017/S0940739125000098

Cohen, L. E., & Felson, M. (1979). Social change and crime rate trends: A routine activity approach. American Sociological Review, 44(4), 588–608. https://doi.org/10.2307/2094589

Europol. (2026). Changing tactics, changing targets: The evolving nature of museum heists (Europol Spotlight Report series). Publications Office of the European Union. https://www.europol.europa.eu/cms/sites/default/files/documents/Changing-targets-changing-tactics-museum-heists-report.pdf

Fuentes Loureiro, M. Á., & Faraldo-Cabana, P. (2026). How organised is the trafficking of cultural goods? Spain as case study. Trends in Organized Crime. Advance online publication. https://doi.org/10.1007/s12117-026-09589-5u

Kopytoff, I. (1986). The cultural biography of things: Commoditization as process. In A. Appadurai (Ed.), The social life of things: Commodities in cultural perspective (pp. 64–92). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9780511819582.004

Vaughan, D. (2015). The Challenger launch decision: Risky technology, culture, and deviance at NASA (Enlarged ed.). University of Chicago Press.

Graça Morais em antologia

Exposição “Graça Morais. Uma Antologia”
Algês, Palácio Anjos (15 mar. – 13 set. 2026)

Com curadoria de António Meireles e Emília Ferreira, a exposição Graça Morais. Uma Antologia reúne mais de 170 obras, entre desenho, pintura e fotografia, realizadas desde a década de 1970 até à atualidade, sem pretender converter esse extenso percurso numa narrativa linear ou numa retrospetiva exaustiva. Menos ainda, tem o intuito de estabelecer uma história definitiva da produção de Graça Morais.

Autorretrato?
Graça Morais, 2002
Exposição “Graça Morais. Uma Antologia”
Foto: MIR, 2026

A escolha do termo antologia é relevante, pois trata-se de selecionar e destacar momentos distintos. Esta relativa liberdade face à cronologia permite centrar-se naquilo que permanece na sua obra – a persistência de temas como a terra, as mulheres, os animais, a memória rural, a violência – e, sobretudo, revelar uma forma de olhar que transforma incessantemente esses elementos e os desloca do particular para uma dimensão mais ampla da condição humana.

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Yayoi Kusama e a sua definitiva dissolução no infinito

A morte de Yayoi Kusama encerra uma das mais longas e singulares trajetórias da arte contemporânea. A artista japonesa morreu a 14 de agosto de 2026, aos 97 anos, num hospital de Tóquio, embora a notícia apenas tenha sido tornada pública a 27 de agosto. No comunicado oficial, Yayoi Kusama Inc. e Yayoi Kusama Studio Inc. recordam uma existência inteiramente dedicada à criação e sublinham que Kusama continuou a pintar até aos últimos dias, sem abandonar o pincel.

Yayoi Kusama, 1939
Foto: Ota Fine Arts, Tokyo / © Yayoi Kusama, Yayoi Kusama Studio Inc.

Nascida em Matsumoto, Japão, em 1929, Kusama construiu ao longo de mais de sete décadas uma obra em que a experiência individual, a repetição, a perceção e o infinito se articulam numa linguagem visual imediatamente reconhecível. Não obstante esta notoriedade quase universal, há que sublinhar a dimensão experimental e radical de um percurso iniciado muito antes de os seus pontos, abóboras e salas de espelhos se transformarem em ícones da cultura visual contemporânea.

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De novo, como novo: a identidade museográfica do Museu Gulbenkian

O lema escolhido para a reabertura do Museu Calouste Gulbenkian, a 18 de julho de 2026, aponta para uma ambivalência entre a recuperação e a renovação. Depois de cerca de um ano e meio encerrado, o Museu apresenta-se renovado, tecnicamente atualizado e museograficamente alterado, mas evita a retórica da novidade, propondo o regresso ao projeto inaugurado em 1969, à relação entre a coleção, o edifício e o jardim e a um conceito expositivo de sobriedade para destacar os objetos.

Museu Calouste Gulbenkian
Foto: MIR, 2026

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Gaza, paisagem de escombros

Para onde iremos depois da última fronteira?
Para onde voarão as aves depois do último céu?
Mahmoud Darwish1

A destruição do património cultural de Gaza dificilmente pode ser compreendida como uma consequência secundária da devastação material e das perdas humanas provocadas pela guerra, como uma sucessão de ocorrências inerentes a um conflito armado. A destruição massiva de mesquitas, sítios arqueológicos, palácios, mercados, bibliotecas, arquivos, museus e espaços patrimoniais significa o desaparecimento dos lugares onde, ao longo da história, um povo se fixou na complexidade da sua existência, estabelecendo vínculos com o território e transmitindo às gerações seguintes a memória daquilo que foi.

A imensa perda do património integra-se numa estrutura de violência, relacionada com processos mais vastos de apagamento da história, da memória coletiva e da identidade palestinas, cujo início remonta à destruição e ao despovoamento da região desde a Nakba de 1948.

Ruínas da Grande Mesquita Omari após ataque israelita
Foto: Reuters, 2023

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  1. Mahmoud Darwish, «Taḍīqu binā al-arḍ» [A terra estreita-se à nossa volta], poema posteriormente integrado em Ward aqall [Menos rosas] (Casablanca: Dār Tūbqāl lil-Nashr, 1986, p. 17). O poema encontrava-se publicado em tradução inglesa de Abdullah al-Udhari, sob o título «The Earth Is Closing on Us», em Mahmoud Darwish, Samih al-Qasim e Adonis, Victims of a Map: A Bilingual Anthology of Arabic Poetry (London: Al Saqi Books, 1984, pp. 12–13). []

Património Cultural 360®: interface digital ou infraestrutura de conhecimento?

O portal Património Cultural 360®(PC360®), lançado publicamente no passado dia 1 de julho, corresponde a uma das mais extensas operações de digitalização do património cultural realizadas em Portugal. Promovido pelo Património Cultural, I.P. e financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, o projeto envolveu um investimento de cerca de 14,5 milhões de euros, uma rede alargada de parceiros e a produção de digitalizações bidimensionais e tridimensionais, levantamentos por laser scanning, visitas virtuais, documentários vídeo, infografias, registos fotográficos e vistas aéreas.

Um mês depois do lançamento, o portal afirma abranger dezenas de imóveis e visitas virtuais, milhares de artefactos digitalizados em três dimensões e mais de três milhões de ficheiros digitais. A escala do projeto revela uma capacidade de produção e agregação sem precedentes no contexto patrimonial português. O reconhecimento institucional antecedeu mesmo a abertura pública da plataforma: em março de 2026, o PC360® recebeu o Prémio Transformação Digital 2025, na categoria «Proximidade com o Cidadão e Sociedade Mais Inclusiva».

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“Não há museus grátis”: os equívocos de uma falsa evidência

Na entrevista publicada pelo ECO em 13 de julho de 2026, Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, admitiu a possibilidade de rever o regime de gratuitidade nos museus nacionais, acrescentando: «Alguma coisa que não é paga terá menos valor do que alguma coisa que é paga. Isto está cientificamente, economicamente mostrado» (cit. in Silvares et al., 2026). Apresentada como evidência consensual, a afirmação estabelece uma relação aparentemente direta entre preço, valorização e sustentabilidade. Essa relação, porém, não encontra confirmação inequívoca na investigação académica: preço, valor percebido, frequência, satisfação, aprendizagem e inclusão são variáveis distintas, articuladas de forma contingente e, em determinadas circunstâncias, de forma contraditória.

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Museu Rainha D. Leonor… o que será?

O Museu Rainha D. Leonor, instalado no antigo Convento da Conceição, em Beja, é uma das mais importantes instituições museológicas do sul de Portugal. As suas coleções de arqueologia, pintura, escultura, artes decorativas e arte sacra conferem-lhe um papel central na preservação e na divulgação do património histórico e artístico do Baixo Alentejo. Contudo, o longo encerramento do museu e os sucessivos adiamentos da sua reabertura transformaram-no num caso que ultrapassa as dificuldades normalmente associadas à reabilitação de equipamentos patrimoniais de grande dimensão, pela incapacidade de afirmar um projeto museológico claro e partilhado e, sobretudo, pela sedutora tentação de recomeçar, de fazer de novo sem atender ao que já havia sido feito.

Igreja do antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição; na nave, os andores de S. João Batista e de S. João Evangelista após o restauro
Beja, Museu Rainha D. Leonor
Foto: MIR, 2025

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Uma nova ética para os museus? Leitura crítica do novo Código do ICOM

O novo Código Deontológico para os Museus do ICOM, aprovado a 25 de junho, sendo uma atualização da versão de 2004, traduz a evolução do conceito de museu e procura responder às profundas transformações sociais, culturais, ambientais e tecnológicas das últimas décadas. Em coerência com a definição de museu aprovada pelo ICOM em 2022, o Código assume que a responsabilidade ética das instituições museológicas ultrapassa largamente a gestão das coleções, abrangendo também a governação, a relação com as comunidades, a sustentabilidade, a inclusão e o impacto social da sua atividade.

Aprovação do novo Código Deontológico para os Museus
Paris, Assembleia Geral do ICOM, 25 jun. 2026
Foto: ICOM Portugal, 2026

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Quando o sol parava: O solstício de verão e a invenção humana do cosmos

Com origem no latim solstitium, o termo “solstício” resulta da junção de sol (o astro-rei) e sistere (que significa imobilizar, parar ou deter). Literalmente, a palavra significa “sol parado”. De facto, ao longo do ano, o ponto onde o sol nasce no horizonte desloca-se ligeiramente todos os dias; no entanto, ao atingir o seu ponto máximo (no verão ou no inverno), esse movimento diário abranda até parecer que o Sol se fixa no mesmo lugar durante cerca de três dias, antes de inverter o seu caminho.
Campo de trigo com ceifeiro e sol
Vincent van Gogh, 1889
Otterlo, Museu Kröller-Müller

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Dois dólmens, uma confeitaria e muita indiferença

Foram destruídos dois dólmens e os vestígios de uma villa romana inventariados na Herdade das Atafonas, na freguesia de Torre dos Coelheiros, ao pé de Évora, para dar lugar a plantação de um nogueiral intensivo. A destruição terá ocorrido em 2017, mas só agora foi detetada e publicitada na sequência de uma visita de técnicos do Município de Évora ao local.

Vestígios dos dolmens destruídos
Herdade das Atafonas
Imagem: Expresso, 2026

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Santo António

E se António era luz do mundo,
como não haveria de sair da pátria?
P.e António Vieira, Sermão de Santo António
pregado na Ig. dos Portugueses (Roma)

Fernando Martins de Bulhões, de seu nome de batismo, nasceu em Lisboa, na última década do século XII.

S. Antonio de Lisboa, espelho de Portugal
C. Duarte
Braga, 1960.
D. F. fecit.

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O que celebramos quando celebramos o 10 de Junho?

O dia 10 de Junho é um momento privilegiado de reflexão sobre a forma como uma comunidade política constrói, interpreta e transmite a sua memória coletiva. A evolução da designação desta data ao longo do último século revela, aliás, as profundas transformações ocorridas na sociedade portuguesa, na relação com o passado e na própria conceção de património cultural.

A escolha do dia 10 de junho está associada à morte de Luís de Camões, ocorrida em 1580. Desde o século XIX, a figura de Camões foi progressivamente elevada à condição de símbolo nacional, representando simultaneamente a língua portuguesa, a expansão marítima, a produção cultural e uma determinada ideia de Portugal (Braga, 1891; Cunha, 2011). Nessa altura, por toda a Europa, consolidava-se a ideia moderna de nação. As revoluções liberais, o romantismo e a emergência dos nacionalismos levaram os diferentes Estados a procurar, no passado, os elementos que justificassem a sua existência histórica e a sua continuidade política (Anderson, 2021; Hobsbawm & Ranger, 2012).

Inauguração do monumento a Luiz de Camões
Desenho: Francisco Augusto Nogueira da Silva; gravador: Alberto (pseudónimo de Alberto Carlos Augusto Nunes)
In: Archivo Pittoresco, 10(28), 9 out. 1867

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Casa de memórias: Museu do Rancho Folclórico de Foz Côa

No contexto contemporâneo da museologia, marcado pela valorização das memórias locais, das identidades comunitárias e do património imaterial, as pequenas casas-museu e os núcleos etnográficos assumem uma relevância crescente. Distantes da monumentalidade dos grandes museus nacionais, estes espaços revelam frequentemente uma capacidade singular de preservar aquilo que raramente entra nas narrativas oficiais: os gestos quotidianos, os ritmos domésticos, as práticas de sociabilidade, as crenças íntimas, os objetos de uso corrente e as formas de habitar o território. É neste horizonte que se compreende a importância do Museu do Rancho Folclórico de Foz Côa, fundada por D. Mariazinha, cuja ação persistente permitiu reunir, conservar e apresentar um conjunto significativo de testemunhos materiais da vida rural e doméstica do território duriense e coense.

Receção
Vila Nova de Foz Côa, Museu do Rancho Folclórico
Foto: MIR, 2026

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Museus a unir um mundo dividido: redefinição contemporânea da função museológica

O tema do Dia Internacional dos Museus 2026, “Museus a unir um mundo dividido” constitui uma das formulações mais significativas assumidas pelo ICOM – Conselho Internacional de Museus nas últimas décadas. O tema foi apresentado como resposta a um contexto internacional marcado pela polarização política, pelas desigualdades sociais, pelos conflitos armados, pela fragmentação cultural e pela erosão das formas tradicionais de convivência democrática. O próprio ICOM sublinha que os museus devem atuar como “pontes” entre comunidades, culturas e gerações, promovendo o diálogo, a inclusão e a compreensão mútua.

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