Exposição “Diálogos: Na beleza das obras contemplamos a beleza do Criador”
Viseu, Museu da Misericórdia (18 fev. – 21 ago. 2022)

Viseu, Museu da Misericórdia
Foto: MIR, 2022
Exposição “Diálogos: Na beleza das obras contemplamos a beleza do Criador”
Viseu, Museu da Misericórdia (18 fev. – 21 ago. 2022)

Exposição “‘Ver novas todas as coisas’: Da conversão à canonização de Inácio de Loyola”
Lisboa, Museu de São Roque (31 mar. – 19 jun. 2022)
Em 20 de maio de 1521, Iñigo (posteriormente Inácio) de Loyola foi ferido numa batalha em Pamplona. Durante a convalescença, leu a Vita Christi, de Rodolfo da Saxônia, e a Legenda Áurea, uma coletânea de narrativas hagiográficas, tomadas como exemplum e reunidas em meados do século XIII por Jacobus de Voragine, o que lhe provocou uma profunda transformação espiritual e a sua conversão religiosa. Inácio de Loyola descreveu esse momento de iluminação, dizendo que “se le empegaron abrir los ojos del entendimiento; y no que viese alguna visión, sino entendiendo y conociendo muchas cosas, tanto de cosas espirituales, como de cosas de la fe y de letras; y esto con una ilustración tan grande, que le parecían todas las cosas nuevas” (Fontes narrativi…, 1943, v. 1, p. 404).

Continuar a ler ““Ver novas todas as coisas”: uma exposição sobre Inácio de Loyola”
Exposição “Paisagens povoadas: Narrativas da coleção do MNAC (1855-1920)”
Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea (16 fev. – 28 ago. 2022)

A exposição “Paisagens povoadas”, com (excelente!) curadoria de Maria De Aires Silveira, cita a expressão “fórmula naturalista da arte moderna” cunhada por Ramalho Ortigão (1885, p. 342) para se referir à representação paisagística que se encontrava “inteiramente enunciada depois de duzentos anos na obra dos pintores holandeses” (id., ibid.)1. Enquanto que a paisagem se implantara na pintura flamenga e holandesa, com um caráter simbólico, didático e moralizador, em Portugal, só a partir da segunda metade do século XVIII, mercê do renovado interesse pela pintura oriunda do norte europeu – evidente nas práticas colecionistas – e também da vinda dos pintores franceses Jean Pillement (1728-1808), Alexandre-Jean Noël (1752-1834) e Nicolas Delerive (1755-1818), começa a registar-se um crescente interesse por este género. Porém, a pintura do Morgado de Setúbal (José António Benedito Soares de Faria e Barros, 1752-1809), artista autodidata com um inequívoco pendor naturalista, é um caso singular no panorama artístico português da época, enquanto a pintura de paisagem se mantinha incipiente ou secundarizada em fundos cenográficos de outras tipologias e temáticas. A corrente naturalista continuava a suscitar uma forte oposição nos meios académicos e eruditos, tradicionalmente ligados à teoria clássica, considerando que a observação sensível da natureza era inferior à experiência intelectual da criação artística. Durante a revolução francesa de 1848, um grupo de artistas, em que se incluíam Théodore Rousseau (1812-1867), Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875) e Jean-François Millet (1814-1875), refugiou-se em Barbizon, privilegiando a paisagem como tema central das suas pinturas. Por seu turno, a invenção e a produção comercial da bisnaga de tinta2 permitiu que o exercício da pintura saísse da oficina e se fizesse ao ar livre, em contacto direto com a natureza.
Continuar a ler “Paisagens povoadas de gentes e histórias”
Quando a notícia de inauguração de um museu municipal, anunciado há mais de uma década, inclui a informação foi feito um investimento de 6,3 milhões de euros, a expetativa é grande. Avoluma-se quando isso implicou a requalificação de um antigo convento assinada pelo arquiteto Carrilho da Graça que, afinal, se mostra desiludido por o resultado não coincidir com o projeto inicial. E a expetativa aumenta, ainda mais, quando o projeto de museologia foi desenvolvido por Fernando António Batista Pereira e Luiz Oosterbeck, em colaboração com o P-06 Atelier e a equipa do museu ao longo de quase quinze anos. Quando a expetativa é grande, maior é o risco de desapontamento. Porém, isso não acontece, de forma alguma, no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA).

Continuar a ler “Museu Ibérico de Arqueologia e Arte em Abrantes”
Exposição “Vi o reino renovar: Arte no tempo de D. Manuel I”
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (25 jun. – 26 set. 2021)
A exposição celebra os quinhentos anos da morte de D. Manuel I (1469–1521), cujo reinado de 26 anos lhe granjeou o cognome “O Venturoso”, Não é, porém, uma exposição centrada no rei, mas no reino que renovou e na arte desse tempo marcado pela conjuntura da favorável da expansão marítima. “O império está em franca expansão, há dinheiro e é preciso comunicar a todos o novo papel que Portugal tem no mundo. O rei precisa, também, de mostrar que é legítimo o seu direito ao trono enquanto primeiro monarca do novo ramo da dinastia de Avis” (Joaquim Caetano cit. in Canelas, 2021, p. 30).

O título é colhido da obra Miscelânea e variedade de histórias, de Garcia de Resende, onde o cronista regista em verso a situação do reino:
[…]
vijmos seu edificar,
no reyno fazer alçar
paços, igrejas, mosteiros
grandes, pouos caualleiros,
vij ho reyno renouar.
(Resende, 1622, p. 155)
Continuar a ler “A ventura de Dom Manuel e um reino que se viu renovado”
Exposição “Rostos de Fátima, fisionomias de uma paisagem espiritual”
Fátima, Convivium de Santo Agostinho, Basílica da Santíssima Trindade (28 nov. 2020 – 15 out. 2022)
Esta exposição tem, literalmente, um fio condutor.

A primeira peça é um tear artesanal com uma peça em meia urdidura e de cuja teia parte um fio vermelho que une cada um dos pontos da exposição, ou os diferentes rostos que constroem a narrativa da exposição. Ao lado, sobre a imagem de uma meada de fios, as palavras-chave que constituem o mote desta narrativa, mas cuja chave de leitura apenas será revelada no final: esquecemos, lições, história, crise, sofrimento, forma de viver, humanidade, rostos, mãos, vozes.
A exposição está estruturada em duas partes sequenciais e complementares, marcada no chão com uma faixa onde se apresenta o respetivo título. A primeira parte “Paisagem humana: que rostos em Fátima?”, concreta e denotativa, mostra os rostos conhecidos daqueles que traçam a história e a fisionomia material do santuário de Fátima. A segunda “Fisionomias espirituais: que rostos de Fátima?”, conceptual e conotativa, assume uma função referencial e interpretativa do sentido espiritual do lugar.

Exposição “D. Maria II: De princesa brasileira a rainha de Portugal: 1819-1853”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda, Galeria do Rei D. Luís, (26 maio – 29 set. 2021)
O bicentenário do nascimento de D. Maria II (1819-1853) ocorreu em 2019. No âmbito das comemorações, realizou-se, no Palácio da Ajuda, o congresso internacional “D. Maria II, Princesa do Brasil, Rainha de Portugal: Arte, património e identidade” (12-14 novembro)1 e previa-se uma exposição monográfica. Após sucessivos adiamentos, a que o período conturbado da pandemia não terá sido alheio, a exposição abriu finalmente na Galeria do rei D. Luís, o segundo filho da rainha evocada.
Após o impacto do congresso, a ampla campanha de divulgação que precedeu a inauguração e, também, a vontade de regressar aos museus poucas semanas após o longo confinamento, o público respondeu de forma muito positiva e entusiasmada, considerando o número de visitantes no primeiro fim de semana após a abertura e a afluência de grupos em visitas guiadas na segunda-feira seguinte.

Continuar a ler “D. Maria II: uma exposição anunciada para o centenário do nascimento da rainha”
Exposição “Guerreiros e mártires: A cristandade e o islão na formação de Portugal”
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (20 nov. 2020 – 25 abr. 2021)
Em 2020, foi comemorado o “Jublieu dos Mártires de Marrocos e de Santo António”1, passados 800 anos sobre o martírio de um grupo de franciscanos italianos: os padres Berardo e Otão, o diácono Pedro e os leigos Acúrsio e Adjuto. Os cinco franciscanos passaram por Portugal, em 1219, a caminho de Marrocos, onde foram executados a 16 de janeiro de 1220 pelo miramolin2, o califa almóada Abu Yusuf al-Mustansir: “ElRey sahio de si de ira, & tomando com furor sua espada elle mesmo os matou com suas mãos, abrindo-lhes pello meyo as cabeças, & despois os degolou” (Rivadeneyra, 1674, p. 182). O infante D. Pedro, irmão do rei D. Afonso II, que os acompanhara a Marrocos, providenciou para resgatar os seus restos mortais e trazê-los para Coimbra, “obrando o Senhor alguns milagres em o caminho por sua intercessam” (id., p. 184)3.

Continuar a ler “Guerreiros e mártires nos primórdios da nacionalidade”
Exposição “Hortas de Lisboa: Da Idade Média ao século XXI”
Lisboa, Museu de Lisboa, Palácio Pimenta (23 out. 2020 – 19 set. 2021)
A horta é, por definição, o lugar de cultivo de legumes, hortaliças, temperos, ervas medicinais e, eventualmente, árvores de fruto, para consumo alimentar e assente num modelo de agricultura sazonal e de regadio. Durante séculos, as hortas existentes no perímetro da cidade asseguravam o sustento da população. A expansão urbana empurrou-as para os arrabaldes, para as zonas periféricas que, como Carnide (vd. projeto e-Carnide), mantêm evidentes traços de ruralidade, até que, nos últimos anos, se tem vindo a registar um esforço, por vezes artificial, ou contrariando a espontaneidade de algumas iniciativas, no sentido da implementação de hortas reguladas pelo município.

A exposição, estruturada em seis núcleos, explora duas vertentes: a histórica, fazendo uma síntese da evolução dos espaços rurais no tecido urbano desde a época medieval à contemporaneidade; a antropológica, através da análise como o indivíduo urbano lida com as memórias da ruralidade e as projeta no seu quotidiano.
Continuar a ler “Uma semente que germina por Lisboa, cidade verde”
O Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, é o único museu nacional a sul do Tejo. Em 2019, o Decreto-Lei n.º 78/2019, de 5 de junho, determinava a mudança de nome do, até então, Museu de Évora, evocando a figura de D. Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora (1802-1814), cuja coleção lhe está na génese. Pelo mesmo decreto, o museu, depois de ter estado sob a dependência da Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRC Alentejo), voltou à tutela da Direção Geral do Património Cultural (DGPC), passando os funcionários a integrar o respetivo mapa de pessoal.

Continuar a ler “Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo: sinais de risco”
Exposição “Vestida de Branco: A imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima”
Fátima, Convivium de Santo Agostinho, Basílica da Santíssima Trindade, 30 nov. 2019 – 15 out. 2020
O Museu do Santuário de Fátima continua a série de exposições comemorativas de centenários relacionados com as aparições. A exposição “Vestida de branco” é comissariada por Marco Daniel Duarte, com museografia dos arquitetos Humberto Dias e Pedro Gândara e design de Inês do Carmo.
Esta é uma exposição comemorativa do centenário da primeira escultura de Nossa Senhora de Fátima. Porém, o objeto nuclear da exposição, isto é, a imagem da Senhora de Fátima venerada na Capelinha, mantém-se afastado do espaço expositivo, embora se anuncie a sua presença, por um dia, no próximo dia 13 de junho, assinalando o centenário da sua chegada ao santuário.

Continuar a ler ““Vestida de branco”: uma exposição em torno de uma imagem”
O Museu de Marinha foi criado por Portaria do Rei D. Luís, de 22 de julho de 1863, que decretou a constituição de uma coleção relacionada com a atividade marítima portuguesa, na sequência de uma outra Portaria de D. Maria II, de 2 de abril de 1836, que ordenava, aos cirurgiões da Armada, a recolha de produtos naturais nos locais onde ancorassem, tendo em vista a criação de um futuro “museu particular da Repartição da Marinha”, para o qual contribuiu com a oferta de modelos de navios existentes no Palácio da Ajuda à Real Academia dos Guardas-Marinha1. Desde então, o museu passou por vários locais e teve diversas designações (Museu Naval, Museu Nacional da Marinha, Museu Naval Português) até que o Decreto-Lei nº 42412, de 24 de julho de 1959, lhe fixou a designação atual como Museu de Marinha, “considerando que a Portugal, como nação essencialmente marítima e marinheira, é indispensável possuir um Museu de Marinha condigno das suas tradições e actividades” e determinando que “a localização ideal para a instalação definitiva do Museu da Marinha é o Mosteiro de Santa Maria de Belém, por todas as razões históricas, estéticas, sentimentais e até turísticas”. A designação “de Marinha” sublinha o caráter genérico da temática do museu, alargando o escopo às suas várias vertentes (militar, comércio, pesca e lazer) e às atividades relacionadas com o mar e, por conseguinte, no contexto português, à história dos descobrimentos e da expansão marítima. A 15 de agosto de 1962, o Museu de Marinha abriu oficialmente as suas portas, nas alas norte e poente do Mosteiro dos Jerónimos.

Continuar a ler “Museu de Marinha: Museografia renovada na Sala dos Descobrimentos”
Em Teerão, dois museus abordam os temas difíceis e controversos da paz e da guerra: o Museu da Paz de Teerão (موزه صلح تهران) e o Museu da Revolução Islâmica e da Sagrada Defesa (موزه انقلاب اسلامی و دفاع مقدس). A ocorrência destes museus está contextualizada pela omnipresente memória da guerra Irão Iraque (1980-1988), iniciada por Saddam Hussein e onde foram utilizadas armas químicas sobre iranianos e curdos, provocando cerca de um milhão de vítimas:
In Iran, countless acres are dedicated to cemeteries for soldiers killed in the 1980s Iran-Iraq war. Endless tears of mourning and pride have fallen for loved ones lost in that “sacred defense”. And numberless sermons and solemnities have turned martyrdom into the highest form of worship. (Peterson, 2007, 24 dez.)
O Museu da Paz, após um período inicial instável, reabriu ao público definitivamente a 29 de junho de 20111, num novo edifício construído no parque da cidade em pleno centro histórico. Membro da Rede Internacional dos Museus da Paz, o museu é recorrentemente distinguido como pelo comité nacional do ICOM como o melhor museu privado iraniano (em 2018, 2016, 2015, 2014). Junto à entrada, uma escultura com uma pomba pousada sobre um capacete de guerra caído anuncia o discurso.

Continuar a ler “Dois museus entre a paz e a guerra”
Exposição “Art on display: Formas de expor 1949-69”
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 23 mar. – 31 dez. 2019
A comemoração dos 50 anos do Museu Gulbenkian (vd. A vida de Calouste Gulbenkian em exposição), inaugurado a 2 de outubro de 1969, é pretexto para sublinhar o enorme contributo no âmbito da museografia e, de forma particular, na forma como concebe, desenvolve e analisa os aspetos museográficos, não só no museu, como também – sobretudo? – nas exposições temporárias que nos ficam na memória1.

Continuar a ler “Lições de museografia na Gulbenkian”
Exposição “Calouste: uma vida, não uma exposição”
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 23 mar. – 31 dez. 2019
Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu a 23 de março de 1869, perto de Istambul, na Turquia Otomana, no seio de uma família de ricos comerciantes e filantropos arménios. Os 150 anos do seu nascimento coincidem com os 50 anos do Museu Calouste Gulbenkian, inaugurado em outubro de 1969, de acordo com as disposições testamentárias de Gulbenkian relativas à sua vastíssima coleção de arte. No âmbito desta dupla comemoração, o museu organizou uma exposição sobre Calouste Gulbenkian, comissariada por Paulo Pires do Vale, traçando uma cronologia da sua vida numa sequência retrospetiva que inicia na construção do museu, no cruzamento entre o homem e a obra póstuma do seu legado.

Continuar a ler “A vida de Calouste Gulbenkian em exposição”