O dia 10 de Junho é um momento privilegiado de reflexão sobre a forma como uma comunidade política constrói, interpreta e transmite a sua memória coletiva. A evolução da designação desta data ao longo do último século revela, aliás, as profundas transformações ocorridas na sociedade portuguesa, na relação com o passado e na própria conceção de património cultural.
A escolha do dia 10 de junho está associada à morte de Luís de Camões, ocorrida em 1580. Desde o século XIX, a figura de Camões foi progressivamente elevada à condição de símbolo nacional, representando simultaneamente a língua portuguesa, a expansão marítima, a produção cultural e uma determinada ideia de Portugal (Braga, 1891; Cunha, 2011). Nessa altura, por toda a Europa, consolidava-se a ideia moderna de nação. As revoluções liberais, o romantismo e a emergência dos nacionalismos levaram os diferentes Estados a procurar, no passado, os elementos que justificassem a sua existência histórica e a sua continuidade política (Anderson, 2021; Hobsbawm & Ranger, 2012).

Desenho: Francisco Augusto Nogueira da Silva; gravador: Alberto (pseudónimo de Alberto Carlos Augusto Nunes)
In: Archivo Pittoresco, 10(28), 9 out. 1867
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