Um homem morreu, deitado no chão, com um joelho opressor sobre o pescoço, a clamar estar a morrer, durante nove minutos. A ser filmado, à vista de todos. Chamava-se George Floyd e era negro. Assistimos à sua morte e ouvimo-lo dizer enquanto morria: “Please, I can’t breathe. My stomach hurts, my neck hurts, everything hurts. They’re going to kill me…”

Minneapolis (MN), 25 de maio de 2020
Imagem: AFP
Ouvimo-lo falar de tudo o que lhe doía, do ar que lhe faltava, da morte que o abatia. Perante as imagens, não podíamos ficar indiferentes. Sabemos que há outros casos de tortura, em Minneapolis ou no aeroporto de Lisboa. Porém, o facto de ter sido filmado e de a visualização das imagens se ter tornado viral, conferiu-lhe uma força incomum. George Floyd tornou-se o símbolo de todas as vítimas de racismo e da violência policial. As palavras que lhe ouvimos tomaram a amplitude de um grito e tornaram-se na bandeira que se agita por todo o mundo. Essas palavras ecoam numa voz que grita em uníssono, num movimento solidário que se sobrepôs ao isolamento imposto pela pandemia e saiu para a rua. Por todo o mundo, as pessoas saíram à rua, numa manifestação que nos enche de esperança, porque ainda somos capazes de indignação e revolta. Contra o racismo, a xenofobia, contra o poder das supremacias que rejeitam os diferentes e oprimem os mais fracos, esta manifestações são por uma causa justa.
A história diz-nos que mesmo as causas justas podem ser exacerbadas e provocar danos; diz-nos que a evolução se processa à custa de movimentos contraditórios. Os equívocos, os exageros, os erros e, até, a instrumentalização que ocorreram nessas manifestações não lhe tiram a razão, nem lhe diminui a causa.


