A morte de Yayoi Kusama encerra uma das mais longas e singulares trajetórias da arte contemporânea. A artista japonesa morreu a 14 de agosto de 2026, aos 97 anos, num hospital de Tóquio, embora a notícia apenas tenha sido tornada pública a 27 de agosto. No comunicado oficial, Yayoi Kusama Inc. e Yayoi Kusama Studio Inc. recordam uma existência inteiramente dedicada à criação e sublinham que Kusama continuou a pintar até aos últimos dias, sem abandonar o pincel.

Foto: Ota Fine Arts, Tokyo / © Yayoi Kusama, Yayoi Kusama Studio Inc.
Nascida em Matsumoto, Japão, em 1929, Kusama construiu ao longo de mais de sete décadas uma obra em que a experiência individual, a repetição, a perceção e o infinito se articulam numa linguagem visual imediatamente reconhecível. Não obstante esta notoriedade quase universal, há que sublinhar a dimensão experimental e radical de um percurso iniciado muito antes de os seus pontos, abóboras e salas de espelhos se transformarem em ícones da cultura visual contemporânea.
Desde o início, Kusama associou a criação artística a experiências de alteração da perceção, traduzindo em imagens a recorrência de pontos, redes e formas que pareciam multiplicar-se e invadir o espaço envolvente. A repetição tornou-se, assim, muito mais do que um recurso formal. Nas Infinity Nets, desenvolvidas desde a década de 1950, a superfície é ocupada por estruturas sucessivamente reiteradas que parecem prolongar-se para além dos limites materiais da obra, desfazendo a distinção tradicional entre figura e fundo.

Foto : Yayoi Kusama Inc.
Ao mudar-se para Nova Iorque, em 1958, Kusama entrou num contexto dominado pelo expressionismo abstrato e onde começavam a emergir algumas das experiências que viriam a ser identificadas com o minimalismo e a pop art.

Yayoi Kusama, 2004
Exposição “Yayoi Kusama: 1945 – Hoje”
Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Foto: MIR, 2024
A sua produção cruzou estes territórios sem verdadeiramente se deixar conter por nenhum deles. Pintou, realizou esculturas, instalações, performances, filmes e happenings, trabalhou sobre o corpo, a sexualidade, a repetição e a cultura de massas, desenvolvendo uma prática cuja originalidade resultava justamente da dificuldade em integrá-la nas categorias estabilizadas da história da arte.

Yayoi Kusama, 1988
Exposição “Yayoi Kusama: 1945 – Hoje”
Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Foto: MIR, 2024
Midori Yamamura (2015) recusa uma interpretação exclusivamente biográfica ou psicológica e situa Kusama nas transformações sociais, políticas e económicas do pós-guerra, analisando a sua obra no contexto da passagem de uma ordem dominada pelo Estado-nação para um sistema artístico progressivamente globalizado e submetido às dinâmicas do capitalismo internacional. Recusando categorizá-la como figura periférica de movimentos protagonizados por outros, Kusama surge como participante ativa na reformulação das linguagens artísticas que acompanharam essa transformação.

Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Foto: MIR, 2024
Em certa medida, Kusama parece antecipar algumas das tensões fundamentais da nossa própria contemporaneidade. A repetição indefinida, a multiplicação da imagem, a erosão da fronteira entre indivíduo e ambiente, a tensão entre singularidade e massificação, ou entre identidade e dissolução, tornam-se experiências quotidianas numa sociedade globalizada e crescentemente mediada por imagens.

Yayoi Kusama, 1966–1974
Exposição “Yayoi Kusama: 1945 – Hoje”
Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Foto: MIR, 2024
A noção de self-obliteration, ou auto-obliteração, é crucial. Ao cobrir objetos, corpos e espaços com pontos ou padrões repetitivos, Kusama conceptualizava a possibilidade de dissolver a individualidade numa continuidade espacial potencialmente infinita. O “eu” deixa de constituir um centro estável e autónomo para se transformar em mais um elemento de uma estrutura que o ultrapassa. Se na sua obra há uma proposta de infinito, esta acaba por sugerir a inquietante possibilidade de desaparecermos nele.

Yayoi Kusama, 2013
Foto: David Zwirner / Yayoi Kusama Inc.
Os Infinity Mirror Rooms levaram esta investigação a uma dimensão física e imersiva. Espelhos, luzes e objetos multiplicam-se aparentemente sem termo, anulando a perceção dos limites do espaço. O observador entra na obra e encontra também a sua própria imagem indefinidamente reproduzida. Deixa de estar perante um objeto exterior para se tornar parte de um dispositivo percetivo que altera momentaneamente a consciência do corpo, da escala e da própria presença.
Se os dispositivos reflexivos podem alterar as relações entre sujeito, imagem e outros espectadores, contribuindo para formas de experiência participativa e relacional, no caso de Kusama, o espelho não serve apenas para tornar visível a presença social dos outros, mas para confrontar cada visitante com a instabilidade da sua própria presença num espaço que parece não ter princípio nem fim (Albu, 2016).

Yayoi Kusama, 2022
Foto: David Zwirner / Yayoi Kusama Inc.
Exposição “Yayoi Kusama: 1945 – Hoje”
Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Foto: MIR, 2024
Também aqui, a obra de Kusama reflete a cultura do século XXI. Nas salas de espelhos, o indivíduo vê-se incessantemente multiplicado: está em toda a parte e, paradoxalmente, perde a sua singularidade. A relação com uma contemporaneidade marcada pela exposição contínua do eu, pela proliferação de imagens e pela sua circulação instantânea através das redes digitais torna-se inevitável. As Infinity Mirror Rooms tornaram-se, elas próprias, um dos espaços mais fotografados da arte contemporânea, criando um paradoxo quase perfeito: uma obra concebida em torno da dissolução do “eu” tornou-se um cenário privilegiado para a incessante produção de imagens do “eu”.
Seria, contudo, redutor explicar o sucesso de Kusama pela sua adequação à cultura da selfie ou às redes sociais. Estas são muito posteriores à génese da sua linguagem. Destaca-se, por isso, uma investigação artística iniciada várias décadas antes parece ter encontrado no presente as condições culturais que tornaram as suas intuições ainda mais legíveis. A multiplicação sem fim, a repetição, a saturação visual e a oscilação entre o desejo de singularidade e a pertença a sistemas globais são características que atravessam simultaneamente a obra de Kusama e a experiência contemporânea.

Yayoi Kusama, 2022
Foto: David Zwirner / Yayoi Kusama Inc.
Exposição “Yayoi Kusama: 1945 – Hoje”
Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Foto: MIR, 2024
Daí decorre o carácter ambivalente da sua extraordinária popularidade. A linguagem que nasceu de uma experiência profundamente pessoal e de uma prática artística radical converteu-se numa marca global, reconhecível em museus, exposições, moda, objetos comerciais e imagens incessantemente reproduzidas. A artista que procurava dissolver o indivíduo através da repetição tornou-se ela própria uma das identidades artísticas mais imediatamente identificáveis do nosso tempo. É uma contradição apenas aparente: singularidade e repetição, intimidade e espetáculo, desaparecimento e visibilidade sempre coexistiram na sua obra.
O desaparecimento de Yayoi Kusama torna mais evidente a dimensão histórica desse percurso. Há algo de particularmente coerente nesse gesto de pintar até aos últimos dias: numa obra construída sobre a ideia de que cada ponto pode prolongar-se noutro e cada superfície continuar para além dos seus limites, o fim biográfico não coincide necessariamente com o fim da imagem.
Referências:
Albu, C. (2016). Mirror Affect: Seeing Self, Observing Others in Contemporary Art. University of Minnesota Press. http://www.jstor.org/stable/10.5749/j.ctt1hch81m
Yamamura, M. (2015). Yayoi Kusama: Inventing the singular. The MIT Press. https://archive.org/details/yayoikusamainven0000yama
Yayoi Kusama Inc., & Yayoi Kusama Studio Inc. (2026, 27 ago.). Announcement of the passing of Yayoi Kusama. https://yayoi-kusama.jp/en/news4518/
OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
Maria Isabel Roque (27 de Agosto de 2026). Yayoi Kusama e a sua definitiva dissolução no infinito. a.muse.arte. Recuperado em 9 de Outubro de 2026 de https://doi.org/10.58079/16ozr


